Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

Há uma voz

Há uma voz que fala no silêncio da Palavra calada e proclamada. É um mistério sempre inacabado na nossa compreensão. Inestimável descoberta de um encontro nunca terminado. Verdade sempre nova de uma relação criativa. Fonte que jorra continuamente em vitalidade renovada. Presença nunca vista de uma mão que se dá sem ser aprisionada. Visão nunca alcançada de um eterno amor. Sentido irresistível de uma atração que se deseja. Possibilidade sempre aberta no infinito coração do mundo. Há uma voz que se cala no silêncio da Palavra proclamada. Uma Palavra sempre nova. Há uma voz que se ouve no silêncio da Palavra nunca dita. Uma Palavra criadora. Há uma voz ressoa no silêncio de uma vida sempre aberta ao céu. Há uma voz que se impõe no silêncio do ruído que não se cala. Uma Palavra suave e terna que leva mais longe. Há uma voz que se diz no silêncio da cidade dos homens que já não creem. Uma Palavra que abre corações. Há uma voz que grita no silêncio dos corações perdidos recriando na derrocada de todas as desilusões. Uma Palavra para hoje.

Tu me amas e eu Te escuto
Revelas-te e eu te contemplo
Estremeces todo o meu ser.
Eu te louvo, Senhor, Tu és meu Rei.
Prostrado diante ti
Venho oferecer-te meu coração
Toda a minha vida, todo o meu ser
Tu me chamas e eu te busco
tu te escondes e eu desespero
tu te ofereces e eu te recebo
me alimentas e me transformas
teu espírito preenche todo o meu ser
Eu te louvo, Senhor.

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Genial

O silêncio da pergunta

Encarcerado na resposta que me obrigaram a decorar e a gravar no coração, como resposta perfeita e total para todas as minhas perguntas. Encarcerado numa resposta feita, elaborada, toda trabalhada pela mente e pelo coração de uma vida que não me pertence. Encarcerado numa resposta feita para mim mas nunca minha. Encarcerado numa resposta que não chega a ser minha, porque responde a perguntas que nunca formulei ou responde de modo distinto das formulações das perguntas que me faço. Uma resposta que basicamente não serve para nada porque não gerou inquietação e não me arrancou do lugar em que me encontro. Procuro uma pergunta. Procuro a pergunta que questiona em mim tudo o que sou e o que faço. Procuro a pergunta que questiona o meu pensamento, o meu coração, o meu existir. Procuro a pergunta sem resposta que gera busca incessante e faz da vida, vida plena em busca interminável. Procuro a pergunta penúltima que não tem resposta feita e não a resposta para a última pergunta que não fiz. Quero inquietar-me, interrogar-me, pôr em causa, acertar e poder errar. Quero buscar e antever, ver e perscrutar, jogar às escondidas com todas as certezas e viver entre incertezas confiado. Quero o silêncio da pergunta que esmaga e liberta, que posso amar e odiar, aceitar e recusar, contemplar e ficar cego. Quero o silêncio que pergunta e vive e não a resposta que mata. Quero a pergunta e tudo o que nela se agita e me agita na busca de uma resposta que não foi dada.

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

As ruínas... de um passado

Obrigaram-me a descer às ruínas do passado sobre o qual se realizaram construções de restauro e novas edificações para diversas finalidades, que assentam na primeira razão e se expandem em muitas outras direções, nem sempre deixando visível a razão inicial da construção. Não é bom descer nem é bom ver ruínas. Tudo é passado e mostra a degradação dos materiais e o desinteresse das pessoas pelo existente. A capacidade construtiva do homem num tempo, acaba por revelar a capacidade destrutiva do mesmo homem, num outro tempo. A arte de buscar ruínas é, tão somente, a arte de buscar o homem na sua pior atitude face ao que ele mesmo foi capaz de edificar. Pedaços de vida tornam-se pedaços de nada. O que fora objeto de luta, esforço, trabalho, suor e tantas vezes de sangue, tornou-se esquecimento diante de novas exigências e novos interesses. Obtuso o coração do homem que não se ama ao ponto de cuidar da sua construção. Obstinado coração do homem que não cuida de si mesmo e se deixa cair na ruína pela busca incessante do mais moderno, do mais prazenteiro, do mais agradável e do mais cobiçado. Concupiscência que te arruína na desgraça da vida sem sabor e sem sentido, por falta de referência a um passado seguro, a uma certeza experimentada. Vaidade caída na desgraça da infidelidade que não sabe amar-se ao ponto de se dar a si mesmo sem reservas nem mitigação de esforços. Pequeno homem que se eleva das ruínas como que altaneira torre que não tem utilidade. Pequeno nada chamado homem que não se encontra para além de ruínas encobertas pelo ser esgotado no nada. Obrigaram-me a descer às ruínas de um passado escondido na ilusão do presente sonhado e sem vida.

Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos Castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada Louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...

Florbela Espanca

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Emblèpein

Emblèpein pena que não dê para colocar aqui os carateres em grego. Nos últimos tempos tenho sido obrigado a olhar de novo para o grego, essa língua tão estranha mas que estudei há anos. De facto, o tempo mostra-nos que o pouco que aprendemos na juventude se torna muito, parece que cresce dentro de nós. Não! Não quero dizer que hoje sei mais grego do que quando estudei esta língua. Quero dizer que hoje a habilidade é maior a vencer as dificuldades que a língua apresenta. Emblàpein - assim como se lê - significa "olhar dentro". Deparei-me com esta palavra ao ler um pequeno texto. Então, parei e fiquei a pensar em como é importante olhar dentro. Dentro de mim onde ninguém consegue olhar e olhar dentro do outro para onde ninguém quer olhar. Dois exercícios difíceis de fazer diariamente. Olhar em mim o que não quero que ninguém veja é o exercício da vitória sobre mim mesmo. Olhar os outros naquilo que ninguém quer olhar para amar o que não é, por si, amável, para amar aquele que transporta em si o que, por não ser agradável, não é amável, é difícil. Amar o que se gosta qualquer um é capaz. Amar o que não se gosta é um exercício muitas vezes doloroso. Mas... o melhor do amor... não é a dor?

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Redes


Construir redes que cativam corações, transformam e realizam desejos, unem pessoas, criam histórias de amor, desfazem enredos e prolongam as vidas. É esse o desefio que nos é proposto.

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

A resposta

Não deixa de ser uma questão importante mesmo quando muitos a entendem como uma questão menor. A questão do sentido, a razão pela qual vivemos, de onde vimos, para onde vamos, que sentido tem a vida, a morte, o sofrimento, o trabalho, o lazer, o amor, a alegria, a lágrima, a possibilidade e a impossibilidade. Trata-se de uma única questão e que atinge a todos. Cultos e incultos, pequenos e grandes, importantes e gente simples, todos se questionam e todos precisam de uma resposta para o sentido. Ninguém, nem uns nem os outros, consegue dar-lhe uma resposta satisfatória. O enigma está em que uns procuram sempre a resposta e outros refugiam-se nas teorias. Uns dizem palavras simples na busca do sentido e outros escondem a questão, chamando-lhe falsa questão e embrulhando-a em palavreado balofo e inútil. A questão, essa, a do sentido, permanece lá, bem no fundo do coração de cada homem. A diferença entre cada homem está, pois, em aceitar a pergunta e procurar-lhe a resposta ou apagar a pergunta para não ter que procurar ou convencido de que não há resposta.