Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Esculpir-me

Pego no pedaço de pedra informe que sou e começo a traçar de um e outro lado as marcas, na superfície, que definem o que está dentro e que sou mas que ainda não se vê, porque trago em cima toneladas de massa que preciso esculpir para que se veja o que realmente sou, no mais íntimo de mim mesmo. Pedra dura que precisa ser esculpida para se revelar no melhor que traz dentro de si. Pedaço de natureza com milénios de história gravada ainda por revelar. Pego no martelo preciso e determinado e começo a lascar, em pedaços, tudo o que sobra de quanto faz falta para surgir o coração na perfeição do ser que se aninha no interior. Força! Força! Bate e repete nas batidas certeiras de impiedoso amor para que surja o homem que se quer revelar. Um dedo, um pé, um pedaço de ser que não sendo nada é já tudo quanto se pode desenhar. Continuo uma e outra vez em ritmo cadenciado pelo suor de quem exerce o esforço sobre-humano de se esculpir a si mesmo num desenho recortado em dimensões de eterno. E surge um pouco mais de algo que não se vê, mas já se sente, em sinais de sonho para lá da realidade. Uma mão e o que pode ser um braço dobrado até ao chão como a revelar cansaço pelo esforço da expulsão que nunca mais acontece. Umas feições de rosto arredondado pelo tempo e uns olhos marcados pela esperança de liberdade a conquistar. E a vida que por dentro corre em sangue de alma renascida em outro tempo. E um coração que bate em seco por redobradas razões nunca pensadas, nem sempre desejadas, mas amadas desde sempre. Esculpo-me a mim com batidas de cinzel perfeito, com mãos de artista e olhos de mestre, em inspirações eternas de criador divino. E prossigo incansável na busca de mim mesmo como se me tivesse perdido em lonjuras de tempos passados, perdidos, já idos. E desejo que se veja o que sou por detrás de toneladas de vida já gasta, já rota, já entornada pelo tempo que foi. E busco-me em escultura esculpida por mãos conhecidas que me sabem e me sentem por dentro do ser, que esculpindo revelo para além de mim. E sei que é assim que posso sonhar-me algo que existe bem dentro de mim.

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